Meu nome é Ismael Silva
Nasci em Jurujuba, em Niterói
E fui para o Rio, essa cidade sempre maravilhosa
Aos três anos de idade
Fundei a primeira escola de samba no bairro do Estácio de Sá
E pelo tempo venho fazendo minha música
Eu espero que vocês gostem —Ismael Silva, em “Antonico”
Os versos acima constituem uma espécie de “apresentação” que o antológico Ismael Silva (1905-1978) faz de si mesmo antes de entoar o Antonico, samba de sua autoria e grande sucesso. Silva não se tratava apenas de um sambista do mais alto calibre, mas também (e principalmente) um dos precursores do carnaval carioca tal como o conhecemos. Ao lado de outros sambistas do bairro do Estácio de Sá, fundou a agremiação carnavalesca Deixa Falar em 1928, que veio a se tornar a primeira escola de samba de um dos carnavais mais famosos do planeta. Não deixa de ser curioso que, mesmo sendo uma figura de suma importância para a consolidação da identidade do Rio de Janeiro, se apresenta nesta introdução como um forasteiro. Não só isso: em sua fala, se percebe um tom algo irônico. Clichês e expectativas como: “essa cidade sempre maravilhosa” e “eu espero que vocês gostem” estão embebidos em uma certa galhofa, característica de quem conhece as coisas por dentro e, ciente de sua complexidade, entende que certos lugares comuns não passam de frases de efeito vazias. Ao mesmo tempo em que adjetiva o Rio como: “essa cidade sempre maravilhosa”, pode-se depreender, pelo tom usado, que a coisa não é tão simples assim. Existem mais coisas entre a Praia de Jurujuba e o Cristo Redentor do que sonha a nossa vã filosofia.

Esse Rio de muitos olhares é tema central da exposição “Essa cidade ‘sempre’ maravilhosa”, promovida pela Nara Roesler Rio de Janeiro. Com abertura no dia 29 de fevereiro de 2024, a exposição apresenta trabalhos de artistas selecionados pelo curador Theo Monteiro, uma verdadeira exaltação ao Rio!

O curador Theo Monteiro selecionou trabalhos de doze artistas, que discutem questões ligadas à cidade do Rio de Janeiro, como a paisagem, lazer, violência, sexualidade, o sagrado, em toda a complexidade que envolve esta metrópole que “desempenha papel decisivo na formação cultural e política do país”. O título da exposição é retirado da apresentação que o grande compositor Ismael Silva (1905-1978) fez antes de cantar seu clássico “Antonico”, no disco “Se você jurar”, de 1973. Para ele:
A proposta aqui é justamente a de mergulhar na vertiginosa complexidade do Rio de Janeiro contemporâneo, cidade que desempenha papel decisivo na formação cultural e política do país. E esse mergulho se dá, justamente, através da produção de doze artistas contemporâneos. Boa parte deles cariocas. Quase todos brasileiros. As exceções acabam por nos mostrar que o alcance das situações e questões vividas pelo Rio de Janeiro já transcende os limites do município, se fazendo presente também em outras regiões do Brasil e alimentando o imaginário estrangeiro.
Esta exposição não tem como objetivo desconstruir ou destruir elementos referentes à identidade da antiga capital do Brasil. Isso seria uma tarefa pretensiosa e potencialmente desrespeitosa. A proposta aqui é justamente a de mergulhar na vertiginosa complexidade do Rio de Janeiro contemporâneo, cidade que desempenha papel decisivo na formação cultural e política do país. E esse mergulho se dá, justamente, através da produção de doze artistas contemporâneos. Boa parte deles cariocas. Quase todos brasileiros. As exceções acabam por nos mostrar que o alcance das situações e questões vividas pelo Rio de Janeiro já transcende os limites do município, se fazendo presente também em outras regiões do Brasil e alimentando o imaginário estrangeiro.

Os artistas participantes da exposição são: Alberto Baraya (1968, Bogotá), Ana Hortides (1989, Rio de Janeiro), André Griffo (1979, Barra Mansa; vive no Rio de Janeiro), Arthur Chaves (1986, Rio de Janeiro), Celo Moreira (1986, Rio de Janeiro), Elian Almeida (1994, Rio de Janeiro), Jaime Lauriano (1985, São Paulo), Marcos Chaves (1961, Rio de Janeiro), Priscila Rooxo (2001, Rio de Janeiro), Raul Mourão (1967, Rio de Janeiro), Vik Muniz (1961, São Paulo; vive e trabalha no Rio de Janeiro e em Nova York), Yohana Oizumi (1989, Rubiataba, Goiás; vive e trabalha em São Paulo).
No piso inferior, estão presentes trabalhos que dialogam diretamente com questões de natureza mais cotidiana. Se fazer presente em uma cidade espremida entre mares, morros e mares de morros requer capacidade humana, técnica, trabalho e estratégia. Paisagens idílicas convivem ao lado de elementos como violência, sexualidade, arquitetura, lazer, propaganda, cultura de massa, histórias e memórias. Falamos de uma urbe que conjuga uma natureza de aparência intocada com a agitação característica de uma metrópole latino-americana. E existe todo um universo no meio e por causa disso.
Em uma cidade onde a vida se faz veemente, só o cotidiano não dá conta. E aí entram o metafísico, o onírico, o sagrado e o celestial. No piso superior, o cotidiano é deixado em segundo plano, e afloram os temas ligados ao espírito, aqueles que só a lógica, a sociologia e o intelecto não dão conta de explicar. A religião, por exemplo, e seus desdobramentos, afinal, falamos de uma metrópole em que a fé é um destacado agente social e político, mas não somente. Também o futebol (o que é o Maracanã senão um grande templo devotado ao nobre esporte bretão?), o carnaval e a ficção dão as caras por aqui, mostrando uma cidade cujo imaginário se enraiza não só geograficamente, mas também nas almas.
Capital do Brasil entre 1763 e 1960, o Rio foi o principal cartão de visita do país em um momento no qual este se consolidava enquanto agente geopolítico. Mais que isso, foi possivelmente onde a ideia de Brasil como hoje conhecemos foi gestada (às custas, inclusive, da invisibilização de outras regiões). E, tal como o país que acabou produzindo, desafia muitas vezes a qualquer lógica pré-estabelecida. Sendo assim, diferentes poéticas podem fornecer olhares e modos de perceber uma cidade que, se nem sempre é maravilhosa, é deliciosamente complexa.
Theo Monteiro é curador e professor de História da Arte, com ênfase em arte brasileira e latino-americana. Foi curador-assistente no Instituto Tomie Ohtake entre 2016 e 2020, e desde 2022 é pesquisador e liaison na Nara Roesler.

Nara Roesler é uma das principais galerias de arte contemporânea do Brasil, representa artistas brasileiros e latino-americanos influentes da década de 1950, além de importantes artistas estabelecidos e em início de carreira que dialogam com as tendências inauguradas por essas figuras históricas. Fundada em 1989 por Nara Roesler, a galeria fomenta a inovação curatorial consistentemente, sempre mantendo os mais altos padrões de qualidade em suas produções artísticas. Para tanto, desenvolveu um programa de exposições seleto e rigoroso, em estreita colaboração com seus artistas; implantou e manteve o programa Roesler Hotel, uma plataforma de projetos curatoriais; e apoiou seus artistas continuamente, para além do espaço da galeria, trabalhando em parceria com instituições e curadores em exposições externas. A galeria duplicou seu espaço expositivo em São Paulo em 2012 e inaugurou novos espaços no Rio de Janeiro, em 2014, e em Nova York, em 2015, dando continuidade à sua missão de proporcionar a melhor plataforma possível para que seus artistas possam expor seus trabalhos.

Serviço: Exposição “Essa cidade ‘sempre’ maravilhosa” de 29 de fevereiro de 2024, das 18h às 21h. Até: 6 de abril de 2024. Entrada gratuita. Nara Roesler, na Rua Redentor, 241, Ipanema, Rio de Janeiro.